por Milton L. Torres, PhD
Minha filha Krícis está às voltas com o vestibular e, por isso, precisa treinar redação. Assim, de vez em quando, nos desafiamos a fazer exercícios de redação sobre temas improváveis. O texto abaixo é o resultado de uma dessas práticas.
Gordasma foi gordo durante toda a vida. Na morte, continuava obeso, vertido sob o peso de uma massa disforme que o desfigurava a ponto de não mais se lembrar se, em vida, havia sido homem ou mulher. Não tivera namorados. Não os quisera, então, e, agora, os odiava. Aliás, detestava também os magros de modo geral. O sexo não era relevante. Arqueado sob o peso de sua banha fantasmagórica, evoluíra na arte de judiar dos magros, especialmente das magras. A princípio, contentava-se em distraí-las na cozinha, obrigando-as, assim, a comer comida salgada demais ou doce demais. Depois, especializou-se em dilatar espelhos, de modo que sempre se viam gordas, gordas a ponto de procurarem emagrecer até os ossos. Ultimamente, vinha frequentando os consultórios dos cirurgiões plásticos. Aprendeu a descalibrar os aparelhos e, sua maldade favorita, exagerar a dose da anestesia. Seu prazer era que não acordassem após a lipoaspiração.
Amorfo e andrógino, o fantasma andava deprimido recentemente. Já não lhe davam prazer as maldades antigas. Cansara-se de inventar dietas fraudulentas para desanimar as gordas que queriam emagrecer. Já não se alegrava, como antes, quando conseguia perverter o apetite das crianças, fazendo-as ficar obesas em idades cada vez mais tenras. Se sua missão de engordar o mundo era para ter algum sucesso, precisava ser mais diligente. Era preciso inovar. Não mais se contentaria com êxitos parciais: ou o mundo se tornava uma bola de banha achatada ou emagrecia de vez!
Estava justamente absorto nesses pensamentos motivadores quando notou uma barata devorando algum tipo nojento de repasto. Teve inveja do inseto. Há muito não sentia fome, privilégio exclusivo de quem está vivo. Isso o deprimiu novamente. Viu outras baratas chegarem e logo se ocuparem de sua refeição. Como entidade fantasmagórica que era, podia dispersá-las. Podia pior: esmagá-las até que suas entranhas se confundissem com a comida que devoravam. Não conseguiu, porém, fazer isso. Sentia uma estranha solidariedade em relação àqueles pequenos e detestáveis seres que também não eram humanos. Decidiu rápido: quando inventasse a derradeira estratégia engordante, ia engordar também as baratas.
Estaria amolecendo? Era justo que os gordos odiassem os magros na mesma proporção em que eram desprezados por eles. Por isso, ou se convertiam, ou deveriam ser eliminados da terra. Para harmonizar as ações à nova conclusão a que chegara, esmagou as baratas mais magras enquanto as outras batiam em retirada. Os fantasmas, mesmo os gordos, são sempre ágeis. Para provar isso, rodopiou e deixou-se cair graciosamente com as pernas separadas e um braço levantado. O chão tremeu sob o impacto da dança paquidérmica.
De uma coisa estava certo: precisava desesperadamente fazer algo radical para quebrar a macabra monotonia. Pensou em emagrecer. O pensamento o induziu a ânsias de vômito. Não estava desesperado a esse ponto! Cogitou na possibilidade de buscar o amor, mas quem se atreveria a cortejar um hipopótamo? Somente outro hipopótamo, e não havia muitos desses no mundo dos mortos. Ocorreu-lhe mudar para um cemitério e simplesmente se isolar, morrer para o mundo. Lembrou-se, porém, de que já estava morto. Além disso, não suportaria o ambiente. Sentia medo indisfarçável de cadáveres. Para piorar, detestava flores e essas demonstrações fingidas de afeto que os vivos insistem em encenar na várzea desolada em que se deitam os defuntos. Resignou-se. Ficaria ali mesmo, esmagando baratas e fazendo outras pequenas maldades. Não nascera para ser grande. Aliás, não nascera para ser grande a não ser no físico sentido de quem tem a silhueta de uma baleia sobre pernas.
O obeso espectro arrastou o corpaço e se acomodou espaçosamente na cama. Ao seu lado, completamente alheia ao fato de que partilhava o leito com um monstro, dormia, com ar esgotado, uma moça magra, magérrima, que sonhava em, um dia, encontrar alguém com quem pudesse dividir a cama larga e fria.